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Três casas e um rio – Editora Martins


Três casas e um rio – Editora Martins


Capa de Portinari

Editora Martins - 1958

Trecho da ObraTrecho da Obra

Alfredo não montava como ela. Ah, queria ser aquela princesa do lago onde os galos encantados cantavam, a princesa que os vaqueiros não podiam ver, pois se a vissem, regressariam ardendo em febre, ou morreriam como aqueles dois que, delirando, morreram falando nela, vista à beira do lago sentada numa raiz.

      Alfredo podia ter nascido entre os livros do pai, cheio daquela raiva de não puder ir embora. Ela, porém, sabia coisas que ele ignorava, de gente, de bichos, de plantas, do seu pai morto, do irmão sumido, do rio. Como princesa, levaria Alfredo para o lago, teriam uma velhinha tomando conta deles. Quando os pescadores e os vaqueiros se atrevessem a querer desencantá-los, os seus encantos, dela e o dele, ficariam dobrados.

      Foi a amizade à lagoa que os reconciliou na tarde seguinte, ao notarem, surpreendidos, que a amiga secava a olhos vistos naquele verão.

  – Está secando, Alfredo. Que vamos fazer. Vai ficar como nos outros anos, seca-seca? A gente tem que lutar contra esse sol.

 E começou a luta pela vida da lagoa. Andreza chamou os moleques da rua de baixo que riram da estranha lembrança. Concordaram, porém, em ajudá-los.

 A lagoa cor de aço inchava ao sol, moribunda. Alfredo, então, se lembrou da cantiga de sua mãe, a história do rio morto. Tornou-se muito tempo pensativo que foi preciso Andreza acudir:

      – Que foi? Olhe, mano, os outros estão trabalhando. Não pense que me esqueci de sua ideia. Não pense. E olhe, a gente tem que encontrar o olho d’água e proteger ele com folha verde. E quem sabe se a arraia não está é bebendo a água.

      – A arraia recolheu a água do olho. Ela guarda a água, por isso a lagoa não morre.

      Apesar de todo o seu ânimo, Andreza temia a arraia. Tinha seis anos, quando certa manhã viu um pescador, ferrado de arraia, gritando de dores. Uma velha disse qualquer coisa à mulher do caboclo e Andreza foi levada para um quarto, escanchada nua em cima da ferida do pescador. Ela gritou, mas lhe dissera que era para sarar a ferrada e que só uma menina naquela posição podia com o veneno da arraia.

      Andreza preferiu não contar essa história a Alfredo. Este responderia que era mais uma mentira. E indagou:

      – Por que às vezes uma verdade fica passando como uma mentira, hein, Alfredo?

      – A gente tem que pedir pro Damião trazer um barril d’água do moinho.

      – Se eu te contasse uma verdade… E sobre a arraia.

      Alfredo fez-se indiferente, Andreza calou-se.

      Uma fila de moleques ia e vinha do poço do cata-vento com baldes d’água que despejavam na lagoa, já um pouco convencidos de que a estavam salvando.

      A lagoa secava rapidamente, a água escoava para o centro, e a lama endurecida as terroadas apareciam. Fios d’água pegajosa fluíam pelas brechas, poças aqui e ali, morriam os raros peixes. Sapos pulavam entre a vegetação esponjosa e escura que agonizava. Murchavam os mururés. Nem um pingo de chuva, o vento que vinha, vez por outra, vinha era queimando. A lagoa morria. Um moleque teve a lembrança de trazer um coto de vela e acender na beira.

      – Pra que isso, Ezequiel?

      – Ela está desenganada. Nem indo pro hospital da cidade dá jeito. Precisa de vela na mão.

      Andreza apagou a vela, pisou-a, quis expulsar o menino. Prometeu dez tostões a Damião que, bêbado, rolava barris da água para o seio da lagoa. Foi preciso o delegado proibir.

      Meninas furtavam dedais de casa que enchiam nos potes e nas moringas para dar de beber à lagoa. Canecos, cuias de Santarém, garrafas cheias, uma mobilização geral de todos os recursos para salvar a lagoa que já mostrava o seu casco do fundo, exaurida e muda.

      Não encontrando o olho d’água, Alfredo e Andreza deslizavam no fundo e se detinham, no meio da lagoa com medo da arraia. Os moleques procuravam cobrir as poças com folhas de bananeiras. Andreza pensou, instantaneamente: se Alfredo fosse ferrado… ela se oferecia, sim, nua-nua para sará-lo.

      Depois repararam que algumas aves bravias voavam em torno, habituadas que estavam a beber ali e foram escalados novos guardas que apedrejavam as aves, Andreza discordou:

      – E onde elas vão beber? Deixem. A água é também pra elas.

      – Elas podem beber no rio.

      E vocês sabem se tem o mesmo gosto, se não é essa água que faz bem a elas? Quem mata a lagoa não é as piaçocas, é o sol. Este sol…

      E Andreza tentava olhar diretamente para o sol, a areia gulosa se tornava amarela, as pestanas pareciam crestadas.

     Se o centro, como um coração, mantinha alguma água para onde traziam socorros, o casco rachado e lamacento descobria o esqueleto da lagoa. O coração vazava sempre. Nem todos os poços da redondeza seriam capazes de salvá-lo.


Heráclio Salles
Heráclio SallesJornalista

“Reencontram-se neste novo livro do Sr. Dalcídio Jurandir as melhores qualidades apontadas nos dois anteriores, acrescidas de experiência nova de uma impressão de madureza atingida pelo escritor em dez anos de meditação sobre a parte e o destino do romance.”

Jorge Amado
Jorge AmadoJorge Leal Amado de Faria (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001) foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos.

“ … esse romance lembra-me certas músicas em órgão, lentas e profundas.”

Renard Perez
Renard Perez(Macaíba, 1928) é um escritor brasileiro. Dedica-se sobretudo a contos e novelas.

“ …É um livro que se lê devagar, apaixonado pelos detalhes, linguagem limpa e a viva adjetivação, que completam a idéia de vigor, de primitivo, apesar de sua poesia e da mediocridade daquelas vidas. E é um livro, principalmente, que deixa uma impressão funda – daqueles que, ao encerrar-se, continuam vibrando dentro de nós. Diário de Notícias,7 de setembro de 1958.”

 



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