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Marajó – Editora José Olympio


Marajó – Editora José Olympio


Editora José Olympio - 1947

Trecho da ObraTrecho da Obra

Já o rio liso o enervava, o estirão da ilha defronte, a marcha de uma barraca noutra margem Dentro do açaizal. Seu pai era o dono daquele rio, daquela terra e daqueles homens calados e sonolentos que, nos toldos das canoas, ou pelas vendas, esperavam a maré para içar as velas ou aguardavam quem lhes pegassem a cachaça. Na cidade, longe da vila, quanta noite de champanhe,  espremido do suor e do sangue daqueles caboclos, dos vaqueiros que fediam a couro e a lama ouvindo nos campos os tambores do Espirito Santo.

     Invejava em certas horas o que os Salmões faziam na fazenda em Chaves;  as brutas farras com caboclas, delegados de polícia, promotores de justiça, tabeliães, tesoureiros municipais  e carne de novilha gorda assando na brasa debaixo das árvores. Missunga sentia-se como aquela tarde, oco e morno. A pequena igreja olhando o rio, o coreto, os banquinhos do largo,  dois benjamins que  Coronel plantara no dia da Pátria e os guris jogando pião.  Em Paricatuba o mato dava-lhe um receio sem nome.  Naquelas verdes espessuras estava a fatalidade,  espiando entre os paus,  assobiando com os quinquiós.  Missunga apanhara no ar a grande palavra:  Fatalidade,  para explicar os champanhes, o surdo-mudo que o seu parente Guilherme explorava, a morte do garçon e as crônicas do Manfredo.

      Dois guris, que se atracavam por via do pião, o atraíram.

Missunga, vivamente, gritou como sempre gritava  aos seus cachorros:

     -  Êta! Isca! Isca! Ei! Isca!

      A gurizada fechou o círculo.

       -  Golpeia, Pedrinho!

       Missunga divertia-se.  Seus gritos excitavam os guris que rolavam na poeira, sujos e escuros como porcos.


Nelson Werneck Sodré
Nelson Werneck SodréNelson Werneck Sodré (Rio de Janeiro, 27 de abril de 1911 – Itu, 13 de janeiro de 1999) foi um militar e historiador brasileiro.

““Marajó”, em qualquer língua, é literatura brasileira. Mas não é apenas pela sua fidelidade ao ambiente que merece apreço: mas pela sua força descritiva, plena de verdade e de beleza, pela sua maneira de fazer viver a gente que povoa as suas páginas, pela realidade com que traduz os laços sociais que a dominam. Tudo isso é literatura da melhor espécie.”

Sérgio Milliet
Sérgio MillietSérgio Milliet da Costa e Silva (São Paulo, 20 de setembro de 1898 — São Paulo, 9 de novembro de 1966) foi um escritor, pintor, poeta, ensaísta, crítico de arte e de literatura, sociólogo e tradutor brasileiro. Foi também diretor de biblioteca, tendo dirigido a Biblioteca Mário de Andrade.

“ … Dalcídio Jurandir é um mestre telúrico.
Marajó é um belo romance, pois ninguém melhor do que Dalcídio Jurandir nos comunica a sensação de deserto, do lobo, do calor deliqüescente daquela imensa solidão de nuvens baixas e verdes malhadas que é Marajó. O estilo empolga, com as suas asperezas, seus regionalismos, suas soluções poéticas de um primitivismo expressivo, sua ausência de malícia.”

Luís da Câmara Cascudo
Luís da Câmara CascudoLuís da Câmara Cascudo (Natal, 30 de dezembro de 1898 — Natal, 30 de julho de 1986) foi um historiador, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro.

 Marajó é um volume feito com a verdade cotidiana, com a paisagem exata, com as fisionomias possíveis da existência. E o seu melhor elogio para um etnógrafo.”



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