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Chove nos campos de cachoeira – Editora Vecchi


Chove nos campos de cachoeira – Editora Vecchi


1941 - Editora Vecchi

Trecho da ObraTrecho da Obra

Sim, como veio tão bela! Perdera aquela brutalidade, aquele riso, aquele desleixo. Veio calma na sua marcha para a maternidade. Eutanázio abriu mais os olhos. Ninguém ficou na saleta.

Desejou passar a mão naquele ventre que crescia vagaroso como a enchente, com a chuva que estava caindo sobre os campos. Desejaria beijá-lo. Está vendo ali a criação, a Gênesis, a Vida. Via nela qualquer coisa de satisfeito, de profundamente calmo e de inocente. Não dava mostra nenhuma de sofrimento, nem de queixa nem de ostentação. Era como terra no inverno. Seu ventre recebeu o amor uma terra. Como a terra dos campos de Cachoeira recebia as grandes chuvas. Por isso ela já humilhava-o de maneira diferente. Tinha sido falada em Cachoeira, enganada, traída,e não mostrava senão a aceitação do filho como um triunfo. Tinha um filho, tinha um filho, seu ventre estava alto e belo. E ele no fundo da rede ia morrer sem aceitar a morte, sem ter aceitado a vida. Quando podia se reconciliar com ela, a serenidade daquele ventre humilhava-o, cobria-o de ridículo. Irene estava mansa, sorria para ele com um sorriso de ser fecundado, de criatura que renova em si mesma a vida. Irene restituíra-se a si mesma. O sorriso dela era manso e nascia de seu coração como luz de amanhecer. Quanto ele não souber sofrer! Morria miserável, ridículo,com aquele medo na entranha, nos ossos. Diante de Irene queria se encher duma coragem imensa para aceitar o  seu destino. Irene era o Princípio do Mundo. As grandes chuvas lhe traziam o filho. Seus peitos cresciam, se enchiam de leite como os das vacas. Ela era tão magnificamente animal, que em seu rosto calmo, em seu ventre, em suas mãos só havia inocência, a inocência de todo o mistério criador. Só ela era a vida! Só ela era a vida!


Álvaro Moreyra
Álvaro MoreyraÁlvaro Moreyra (Porto Alegre, 23 de novembro de 1888 — Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1964) foi um poeta, cronista e jornalista brasileiro.

“Um Noé desconhecido. Um livro estupendo. Vieram juntos do Pará, trouxeram aquela gente, aquelas paisagens, a vida de um pedaço do Brasil – a vida vivida. A fôrça de Dalcídio Jurandir está realidade que ele foi encontrando em longas viagens pelo interior, no contato da sua juventude com a natureza e as criaturas presas a ela. Não é um autor que escreve. É um homem que fala.”

Herberto Sales
Herberto SalesHerberto de Azevedo Sales (Andaraí, 21 de setembro de 1917 — Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1999) foi um jornalista e escritor brasileiro.

“Uma Obra da maior importância pelo conteúdo humano e a denúncia de uma determinada situação social.

 

 



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